Justificativa

Quem quer que se refira aos “jornalistas brasileiros” atualmente recorre a indicadores
arbitrários para produzir essa definição: não há fonte de dados, pública ou privada, capaz de
estimar, de modo confiável, quantos são os jornalistas que atuam no Brasil.
Os registros profissionais de jornalistas acumulados nas superintendências regionais do
trabalho e emprego (SRTs) superam cem mil. Mas nem todos os jornalistas que atuam no
país têm registro profissional. E, entre os que constam da relação das SRTs, há um número
inestimável de indivíduos que faleceram ou abandonaram o ofício (dados de Guimarães,
2006).

Para a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a corporação tinha metade desse volume em 2006. A
entidade “estima que o número de jornalistas em exercício aproxime-se da casa dos 50
mil, dos quais 20% desempregados, 20 mil trabalhando em veículos diversos
(agências de notícias, jornais, emissoras de rádio e de televisão) e outros 20
mil trabalhando em assessorias de empresas ou em regime precário (freelancers,
“pejotas” ou filiados a cooperativas), sem registro em carteira
profissional” (id., ib., p. 192).

A estimativa parece ter como base os dados reunidos periodicamente pelo Ministério do
Trabalho, a partir da Relação de Informações Sociais (RAIS) preenchida obrigatoriamente,
ano a ano, pelos empregadores. “Em 1999, por exemplo, havia 19.944 jornalistas com
carteira assinada no país” (id., ib., p. 192). Tais dados são visivelmente subdimensionados,
como retrato das dimensões da profissão: muitos jornalistas atuam sem registro em carteira
e, entre os com carteira assinada, as funções podem não mencionar especificamente o
ofício.

Estas projeções também podem ser relacionadas com outro dado: o total de sindicalizados
nas 31 entidades de base da Fenaj, em 2010, somava 40 mil. A Federação estima contar com
taxa de sindicalização superior a 40% da base – o que projetaria o total de jornalistas a cerca
de 100 mil. A Fenaj observa, contudo, que as novas gerações de profissionais têm maior
resistência à filiação sindical.

Nas últimas décadas, o número de escolas de jornalismo cresceu continuamente. Em
dezembro de 2010, havia quase 400 cursos de jornalismo ou cursos de comunicação social,
com habilitação em jornalismo, em instituições de ensino superior no Brasil. Com potencial
para formar a cada ano milhares de novos jornalistas (com ou sem registro profissional), tal rede de instituições atua de modo reticular, e seus efeitos sobre o mercado de trabalho escapam à capacidade de observação dos sindicatos da categoria e ao alcance da fiscalização do Ministério do Trabalho.

Este projeto pretende, por meio do cruzamento de bases de dados provenientes de fontes
variadas, estimar o número de jornalistas em atuação no Brasil.
Calcular com maior precisão o total de jornalistas brasileiros é fundamental para a realização
de uma série de outras pesquisas destinadas a traçar um perfil desses profissionais,
mapeando onde trabalham, quanto ganham, que funções ocupam, qual sua distribuição
regional, por gênero, religião ou etnia e outras informações relevantes para a categoria, para
os empregadores, para o movimento sindical e associativo, para a sociedade, para o
governo. Os jornalistas são uma categoria profissional estratégica para o estudo dos
impactos das transformações no modo de produção capitalista sobre o mercado de trabalho
(na era da informação).

Alguns esforços têm sido feitos com objetivos semelhantes, mas a ausência de uma
estimativa confiável sobre o número e a distribuição territorial dos jornalistas no país
confina vários estudos em andamento atualmente a amostras aleatórias de dimensões reduzidas. Tais
escolhas metodológicas conduzem a resultados inevitavelmente enviesados em termos
quantitativos – com implicações incontornáveis na qualidade das respostas.
A quantificação da categoria permitirá ainda a realização de pesquisas comparativas entre as
realidades do ofício no Brasil e em outros países, como Portugal, Estados Unidos ou França,
nos quais estudos sobre o perfil dos jornalistas têm sido feitos com regularidade.
Também contribuirá, com uma diversidade de dados, para a reflexão sobre a composição
dos currículos dos cursos de formação de jornalistas no país e para a redefinição das
estratégias de controle da distribuição dos cursos no território nacional, em função da
demanda por profissionais da área.